> Arrastarock, um estilo ou anti-estilo musical?

Uma novidade que milhares de internautas, já descobriram, parcialmente através dos sites de busca da internet, esta chegando por inteira às lojas de discos da cidade, nos próximos dias. É o arrastarock, uma música que foge ao convencional. Nela, um arrasta-pé pode virar um rock, um blues pode virar uma catira e um xote pode virar um blues, e vice-e-versa. Esta nova forma criativa de se fazer música está no novo cd de Byron de Quevedo: Arrastarock, com dez canções, que são experiências de muitas tendências; ou seja, é um painel da música brasileira, inclusive com suas influências internacionais. Byron vive no seu mundo underground e reaparece agora pra mostrar o que anda fazendo aí pela cidade. Ele mais uma vez conseguiu unir um time de músicos de primeira linha para acompanha-lo. A Banda Made in Blues praticamente co-assina o trabalho, já que seus componentes participaram de todos os arranjos. Paulinho Moreno e Marco Fernando, também músicos da Banda, são co-autores em cinco faixas do cd. As demais canções são de autoria própria. Os metais ficaram a cargo dos cubanos Oscar Serviat e Delfin Rodrigues Rodrigues e os backing voices com Márcia Santos e Marcelo Piu. Todos, como sempre, bem afinados. Paulinho Moreno é compositor de blues e rock. Já, Marco Fernando faz blues. Mas não esperem ouvir neste cd blues, rock, xote ou catira, esperem ouvir a experiência arrastarock.

O que se pode chamar de arrastarock é uma viagem musical, sem preconceitos, em busca do inusitado. Byron diz que escreve suas canções usando variações ritmos e até de compassos dentro de uma mesma composição, para alterar o andamento, e mesclando diferentes estilos. Segundo Byron, a padronização de um ritmo repetidamente na mesma cadência, tornam belas canções, de certa forma, previsíveis; ou seja, o que se inicia como um blues, rock ou xote; normalmente, irá terminar como um blues, rock ou xote, etc. "Minha idéia e subverter esta ordem, construir um estilo ou um anti-estilo e fazer algo mutante. Assim cada faixa do CD não tem vínculos com a faixa anterior, nem mesmo com outros cds passados ou que ainda virão".

"Mas experiências como o arrastarock não seriam possíveis - continua Byron - se algo mágico não existisse entre as canções de muita gente boa: Louis Armstrong, Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Fats Domino, Lupicínio Rodrigues, Little Richard e outros iluminados. Estes caras forneceram-me muita inspiração. E ao tentar fazer uma ponte entre estes estilos portas se abrem a outra universalidade sonora. Creio que as obras musicais deles são como vasos comunicantes, trabalhar com todos os seus fillings e a partir daí sugerir algo novo, é o que há de maravilhoso pra mim."

Conta Byron que "a ficha lhe caiu" quando verificou, ainda nos anos 70 quando estudava artes no EUA, que determinadas músicas brasileiras e americanas tinham características que as aproximavam muito, quase como se uma fosse a continuação da outra, nada de plágio, era apenas um encanto entre elas. "O próprio Luis Gonzaga já dizia - enfatiza Byron - "Se vocês acelerarem o meu baião vai dá nesse tal de rock". E eu acredito que se desacelera-lo ele vira um blues. A exemplo, na música Xote das Meninas e em tantas outras do Velho Lula, esta metamorfose já era e totalmente possível. Lá nos EUA esta fusão de ritmos também já acontecia. Na música "I Love You So, de F. Wilson, J. Porter e E. Levy interpretada por Louis Armstrong e Velma Middleton, pode-se observar a passagem de um ritmo para o outro. Louis fez os arranjos dando a canção um delicioso toque de baião-jazz. Há ainda várias tentativas bem-sucedidas de músicos do mundo inteiro juntado ritmos nacionais e internacionais, e ao mesmo tempo, enriquecendo o seu próprio trabalho. O arrastarock é uma destas tentativas".

Nacionalizando o ritmo

"O arrastarock é um tralalá que vem do povo, nada de muito complexo". Primeiro sempre lhe vem a inspiração, só depois a transpiração. - esclarece Byron - "Creio que a coisa funciona assim: as estórias surgem em forma de sons, ritmos e harmonias. Meu trabalho de fato é simples: resume-se em não bloquear muito as coisas e deixar que a idéia fale da própria idéia. Ou seja, arte constrói o seu próprio caminho, se eu não deturpa-la, sem dúvida, ela será bela. Quando recebo bases musicais prontas, normalmente em blues ou rock, eu procuro ouvir os instrumentos, e eles vão ditando os caminhos, aqui e ali eu vou dando as minhas pinceladas de arrasta-pé, xote, catira, etc. Ou seja, vou nacionalizando o ritmo. Acho que neste último cd já conseguimos fazer uns arrastarocks bastante dignos. Gosto muito de "Cris , Assis e o Veloz Rapaz" e "Maria Blues".

Em busca do Homem de Sete Braços

Conta Byron de Quevedo que durante anos andou com suas canções cifradas debaixo do braço para gravá-las. Passou por vários estúdios. E na maioria deles não viu quem queria encontrar: um arranjador sensível, que tocasse vários instrumentos, e principalmente, que fosse humilde. Só no final de 1998 chegou a Paulinho Moreno, no Estúdio Artemanhas em Brasília, por indicação de amigos. A partir daí o arrastarock começou a sair de fato do papel. E de lá pra cá foram dezenas de arranjos, inclusive os arrranjos do último cd, e de muitas parcerias musicais.

"Primeiro, entreguei ao Paulinho uma música horrível. - comenta Byron - A letra era ridícula e a melodia um lixo. Durante a instrumentalização o Paulinho jamais fez nenhuma ironia, nem sequer esboçou um ínfimo ar de desdenho. E conseguiu extrair daquela gororoba um belo arranjo. Algum tempo depois voltei ao estúdio dele para fazer um cd completo com 12 músicas, mais aí as músicas já eram melhores".

"A partir de então passei a chamá-lo de "O Homem de Sete Braços", pois toca sete instrumentos perfeitamente, e tem um talento especial para fazer arranjos, além de ser muito bom em shows ao vivo, com a sua guitarra.

Bate-papo com Paulinho Moreno

Rev. Nossa - Paulinho como é esta coisa de tocar 7 instrumentos, de ser "O homem do sete braços"?
Paulinho - Byron é quem diz que eu toco sete instrumentos, eu acho que eu toco apenas guitarra e bandolim, agora os demais eu tento tocar mais por necessidade do próprio trabalho no estúdio.

Rev. Nossa - Como foi o seu primeiro trabalho com o Byron de Quevedo?
Paulinho - Eu trabalhava no Artemanha, um estúdio que tinha um bom nome na época - lá gravou grupos como Legião Urbana, Plebe Rude, etc... e um dia me apareceu por lá um cara meio louco, com um violão nas costas, dizendo que queria gravar uma música para um festival. Achei a música complicada, mas como era coisa pra festival eu falei OK. Aí ele gostou e voltou algum tempo depois pra fazer um cd. Só falamos de preços, falamos de arranjos, falamos em muita coisa, mas eu não tinha ouvido nenhuma das músicas. Quando eu comecei a ouvi-las e ver as partituras, eu pensei "Meu Deus do Céu, o que que eu fiz: cobrei barato!". Então só me restou encarar, já tinha assinado o contrato. Mas o trabalho dele é muito legal pois deixa espaço pro arranjador criar em cima.

Rev. Nossa - Agora depois de dezenas de arranjos, como foi ser também parceiro dele em tantas canções?
Paulinho - Eu gosto das letras do Byron. Tem sempre uma pitada de humor, mesmo quando fala sério sobre alguma coisa. São sempre assuntos atuais, do dia-a-dia. Quando eu entrego uma base pronta pra ele adaptar, eu gosto muito de ver a percepção musical dele; principalmente quando pega alguns detalhes de um ou outro instrumento, guitarra, baixo etc - aí ele capta e faz daquilo uma melodia com letra. Trabalhar com ele é muito bom.

Rev. Nossa - E como você vê o Arrastarock?
Paulinho - É uma coisa bem enraizada e forte, por que apesar de ser uma mistura, já tem vários elementos bem colocados do blues, do rock, do arrasta-pé, baião etc. Tem tudo pra ser uma coisa muito mais forte ainda, pelo fato de esta enraizada em várias coisas boas

Rev. Nossa - Mas é um estilo ou um anti-estilo musical, o arrastarock?
Paulinho - Não vejo como sendo um anti-estilo, porque a partir do momento que não tem estilo nenhum, isso já não seria em si um novo estilo?

Rev. Nossa - E como você vê o Made in Blues, como co-participante neste novo cd?
Paulinho - Eu sinto que os músicos da Banda gostam,as vezes eles acham as musicas muito engraçadas. Eles gostaram de participar do trabalho. Acho que é uma parceria que esta crescendo bastante.

Rev. Nossa - De todas as músicas do Byron qual dela você mais gostou?
Paulinho - Do cd anterior gostei de "Black Jack" e "Blue Jeans e Shakspeare" , que me deram muita dor de cabeça, um trabalho miserável pra arranja-las; e deste novo, gosto das músicas "Cris, Assis e o Veloz Rapaz", "Eisenstein and I" e gosto muito mesmo de "Maira Blues".

Opiniões

"È nítida a intenção dos autores e da banda Made in Blues, de passear pelo mundo rompendo fronteiras, misturando estilos sem perder a personalidade. Um trabalho autoral de boa qualidade, provando existir vida inteligente na atual música brasiliense". André Negão (DJ e baterista)

"Eu achei que o cd Arrastarock confirma que o Byron de Quevedo esta numa evolução. Eu conheço o cd anterior dele e vejo que melhorou não só as composições como também o instrumental, os arranjos estão muito bons também. O arrastarock é uma idéia que se transformou num ritmo, ou o ritmo que se transformou numa idéia? Acho que esta pergunta não tem que ser respondida. E sim, o trabalho tem que ser consumido. As pessoas tem que ouvir este cd do Byron de Quevedo. Eu gosto muito da música "Sad Guy, Happy Girl", mas eu tenho um carinho muito grande por "Maria Blues", pois é um blues muito bem feito. Agora, a conceituação do Arrastarock esta mais evidente na música "Origem do Arrastarock"

Tiago de Souza e Albuquerque Barbosa (jornalista)